domingo, 16 de junho de 2013

Nossa reunião do dia 12 de junho/ a próxima reunião será no dia 26 de junho (quarta-feira), às 14 horas. Está confirmado que cada membro do Nieta pode convidar os alunos interessados. 
Na ordem do dia continua o texto de Pierre Guisan "As línguas e as suas traduções: algumas considerações sobre as funções e as suas representações" (se encontra em postagem anterior)

Participaram: Andrea, Pierre, Vitor, Roberto e os alunos convidados: Priscila Prado, Jefferson Novato, Pedrita Mynossen, Juliana Fernandes, Maria Gabriella 
Começamos a discussão sobre o texto de Pierre Guisan . A discussão foi produtiva, embora conseguimos entrar soment na primeira parte do texto. Em particular, os pontos levantados durante o debate foram: 
oralidade vs. escrita; 
tradução da Bíblia; 
Interpretação literária. 
Textos citados: Antoine Berman A prova do estrangeiro, Jack Goody a lógica da escrita. Eric Havelock. Preface to Plato e outros (podemos intergrar esa lista com comentários). 

- Próximo encontro: 26/06 às 14h.


Da penúltima reunião do Nieta: 

- Concordamos que será necessária a formalização do grupo (CNPq) em futuro breve.
- Concordamos que a periodicidade de encontros e evento é fundamental para que possamos reivindicar espaço e verba.
- O NIETA é "um espaço de reflexão e prática interdisciplinar sobre Tradução e Adaptação cujas iniciativas periódicas se darão na forma de debates, palestras e simpósios.
- Sugeriu-se uma jornada par que todos os membros pudessem falar brevemente sobre as pesquisas que estao desenvolvendo.
- Um template de ppt foi criado por Vitor.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Amanhã, às 14 a reunião será na sala F 206 e não mais F 208

Na ordem do dia:

1. Eventuais novidades sobre a iniciativa de setembro (vinda da delegação da Irlanda)

2. Novidades sobre o dia de discussão (Álvaro)

3. Discussão sobre o texto de Pierre (todo ou em parte)




terça-feira, 4 de junho de 2013

quarta-feira, 12 de junho às 14 na sala F 208 NOVA REUNIÃO


quarta-feira, 12 de junho às 14 na sala F 208 NOVA REUNIÃO  

OI para todos!
publico aqui um resumo de nossa reunião do dia 27 de maio (segunda). Participaram: Andrea, Vitor, Pierre, Luiz Montez e Álvaro Bragança 
foi uma ótima reunião (a Márcia e o Diego já tinham avisado que estariam com compromissos). 
Debatemos a questão dos textos (artigos) publicados no blog. Para Álvaro, houve um excesso de "carga" (no artigo do Andrea e no do Marcelo. Andrea (eu!) argumentou que debater pode-se fazer tb por partes. Não precisa que todos compartilhamos "o peso" de toda uma argumentação, para poder entrar no vivo de uma discussão...
Resolvemos pensar melhor o que fazer com eles, se pedir a trodos um curto resumo para o debate (no meio tempo,tivemos o textos da contribuição do Pierre, que pode ser fundamental para equacionar, pois é um texto mais equilibrado e se presta melhor a ser discutido). 
Vitor fic ou de enviar um exemlo de templates, que efetivamente já enviou.  Qual escolher? 
1. A prõxima reunião será no dia 12 (quarta-feira) às 14 (F 208).  Todos devem novamente dar o dia e o horário melhor, para não errar ! 
2. Estão programados três eventos:
a. (Vitor) evento com David Johnston,  no dia 2 de setembro, em sala não central para o Cifale. Tema:  What is translation? 
convidaor orientandos e interessados (ao todo 25/ 30 pessoas) 
David Johnston teaches at Queen's University Belfast, and is a former Chair of the Lyric Theatre. He is a multi-award winning translator, whose work has been performed throughout the world. His translations and adaptations include Lorca's 'Blood Wedding', Lope de Vega's 'The Gentlemen from Olmedo', 'The Great Pretenders' and 'Madness in Valencia', Valle-Inclan's 'Bohemian Lights' and Calderon's 'The Painter of Dishonour'. He is Professor of Hispanic Studies at Queen's University, Belfast.

b. Realizar uma  Oficina de tradução (como evento extracurricular). Precisa criar uma idéia forte, para que a s pessoas gostem de participar....
Prazo: segunda metade de agosto (cuidado os prazos dos extracurriculares) 
Resp. Álvaro  
c. Uma jornada do Nieta, com apresentação de todos nós. Cuidar para que não seja informal demais...4 slides para cada (preparação do debate)?  
[Não foi decidida a data, mas se todos concordarmos podemos começar com o artigo de Pierre, a partir do primeiro parágrafo (oralidade e escrita), para a próxima reunião.] 
3. Pedir para que todos os membros do Nieta formulem outras propostas
4. Institucionalização do Nieta (Vitor pode verificar?_) 
5. Coordenador e Secretário executivo: confirmamos essa fórmula? No caso, eu posso coordenar (até ter uma votação) e Vitor pode secretariar 
6. Entrar em contato com Paraty (Johannes Kletschmer ) para convidar escritores que vão lá e podem participar de algum evento do Nieta na UFRJ (pedir para um Programa de Pós verba para alojamento.
7. Entrar em contato com Santa Catarina UFSC , para pedir intercâmbio...



AS LÍNGUAS E AS SUAS TRADUÇÕES



Eis aí a proposta de discussão de Pierre Guisan, que estavamos esperando!!! 
Pessoalmente, acho muito estimulante reservar um, pouco do tempo para começar uma discussão, utilizando o texto do Pierre come base...

Lidar com questões relativas à língua é algo fascinante. Sabemos (por sermos docentes e por termos mais do que 30 anos) que  a interpretação da relação língua-cultura , por ex. (o tema que mais me interessa) é bem variada, aliás: inclui muitas opções ou melhor: infinitas.  

proposta de discussão (texto revisado por Pierre: 5/6/13)


AS LÍNGUAS E AS SUAS TRADUÇÕES: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS SUAS FUNÇÕES E AS SUAS REPRESENTAÇÕES
revisado 5-6-2013  
Pierre Guisan
UFRJ


Seguem algumas observações a respeito da complexa relação entre línguas e tradução, agrupadas aqui em nove pontos
1.       O foco: A instrumentalização das línguas, e a função da tradução neste contexto.
A língua é geralmente vista como um sistema de comunicação, realizado segundo duas modalidades: a oral e a escrita. Estudada certamente desde que o homem existe, ela apresenta uma particularidade própria: ela é o único objeto de estudo que usa como ferramenta de investigação a si própria. Só temos como ferramenta a língua para pesquisar a língua, e para expressar as hipóteses, as análises e os resultados. Quando estudado, o objeto é geralmente isolado, daí a tendência em considerá-lo como uma realidade neutra. Tal abordagem não deixa de ser justificada numa primeira etapa das investigações – e assim rezam as aulas da Lingüística Geral de Saussure.
Entretanto, pela sua própria natureza comunicativa, a língua é um instrumento em contato permanente com todos os aspectos da realidade que a cercam. De forma que a linguística, no seu conjunto, não faz nenhum sentido se não for social, interdisciplinar e conectada com todas as dimensões da atividade humana. Por sinal, a nosso ver, o mesmo se pode dizer daquilo que costumamos chamar de literatura.
A fortiori, a tradução, e a reflexão que se constrói a respeito dela, que considera o contato entre duas ou mais línguas diferentes, vai ainda reforçar a necessidade de se trabalhar numa perspectiva transdisciplinar, logo de cooperação permanente com todos os pesquisadores e agentes envolvidos.

2.       As duas funções paradoxais da língua: comunicação e identidade.
Nesta etapa, é importante lembrar aqui uma realidade primordial, e todos os estudiosos da tradução e da língua em geral nunca devem deixar de ter presente na mente tal realidade: as línguas possuem duas funções principais, que atuam simultaneamente e de forma permanente, embora sejam paradoxalmente opostas: a comunicação e a manutenção da identidade social – e, logo, cultural.
A primeira função, comunicativa, é óbvia: a língua serve para os seres humanos entrar em contato, sinalizar a sua presença, trocar mensagens, manifestar afetos. Geralmente isto se dá entre indivíduos, embora umas formas de discurso possam ocorrer entre um indivíduo e uma comunidade, que tanto pode ser uma platéia, um público presente fisicamente ou virtualmente, mas também um grupo socialmente definido, ou ainda um povo, uma nação, por exemplo. Aí é que a delimitação do público-alvo se torna mais complexo, já que a sua definição se torna em grande parte ideológica, ou seja, dependendo justamente de um discurso prévio que contribuiu para moldar o conceito. Assim já se constata o caráter dialético, variável, ideológico e freqüentemente inconsistente da definição de muitos conceitos ou noções em uso nos discursos sobre as línguas e as traduções. Porém, de forma aproximada, podemos afirmar que a fonte primária do discurso seria um indivíduo, que se dirige para outro indivíduo, ou para um conjunto de indivíduos, uma coletividade real ou imaginada[1].
Por este motivo, no caso o uso formal comunicativo da língua e da sua realização através da formulação discursivo de um autor-indivíduo, deixa geralmente em segundo plano, e um tanto esquecida a outra função essencial da língua, que é o seu papel de instrumento de reconhecimento entre os indivíduos de determinada coletividade, ou seja, a sua função identitária. Ora, como se define uma identidade coletiva? Pode ser de forma positiva, construindo mitos baseados em crenças, histórias ou lendas. Mas acontece que a identidade é muito mais facilmente elaborada “negativamente”, isto é, destacando diferenças com os vizinhos, os próximos, em outras palavras estigmatizando o Outro, que pode assim facilmente se tornar o rival, o adversário, o inimigo. É assim que a língua, longe de ser uma ferramenta para a comunicação ou a aproximação, vai se tornar um instrumento identitário de divisão e de distanciamento com o Outro. Dito de outra forma, podemos afirmar que na medida em que a língua se torna o meio de reconhecimento entre determinados indivíduos, tem que se tornar obrigatoriamente um instrumento de divisão entre coletividade, regiões, países ou, como dizemos modernamente, nações.


3.       Tradução e visão do mundo, religião e/ou política.
Com essas considerações, conseguimos vislumbrar um papel grandioso para a tradução: o de superar a função divisora que as diferentes línguas podem preencher: “ein Volk, ein Reich, ein Führer... une eine Sprache” (“um povo, uma nação, um guia... e uma língua”)! Os nazistas, aliás, quando quiseram impor o nome Fernsprecher para substituir o tradicional Telefon nas cabines de telefones públicos nas ruas, tentaram fazer da tradução a sua aliada na sua luta contra os estrangeirismos, considerados vírus ameaçadores para a pureza alemã... Mas a palavra grega internacional voltou às ruas após a derrota de 1945. Entretanto não foi o caso de Fernsehen (televisão), que foi inventada durante a ditadura nazista, assim como a palavra que já havia se imposta no uso popular.
Pessoalmente costumo comparar língua com religião, cujos papeis sócio-políticos são bastante semelhantes, já que ambos tratam de assegurar a coesão de determinada comunidade, tanto horizontalmente, entre os indivíduos que a compõem em determinado momento, quanto verticalmente, transmitindo o sistema de valores compartilhados de uma geração para a outra – o que é da responsabilidade da educação.

4.       Tradução literária X tradução técnica: a distinção faz sentido?
Há em particular um ponto freqüentemente citado, a respeito do qual faço questão de manifestar a minha crítica, na medida em que me parece precisamente demonstrar uma visão distorcida ou estigmatizante dos estudos de tradutologia: a visão que separa a tradução “literária” da tradução dita “técnica”. Já evoquei em outras oportunidades esta questão, de modo que não vou me delongar no tema. Basta apenas lembrar que não é propriamente o processo da tradução que difere, mas antes o texto a ser traduzido. Sabemos todos que um texto literário se caracteriza antes de tudo por ser “plural”, isto é, de uma riqueza de interpretações renovadas a cada leitura. Tal pluralidade vem naturalmente a constituir um grave defeito quando se considera um texto de características técnicas, quando a univocidade singular de interpretação, ao contrário, se torna uma qualidade indispensável – é só de se pensar na pluralidade de interpretações de um manual de um forno de micro-ondas coreano, e das catástrofes que dessas interpretações decorreriam!

5.       O envelhecimento das traduções – e traduções de traduções.
Curiosamente, considera-se como evidência a necessidade de se “modernizar” a tradução de um texto determinado, enquanto raramente se questiona a mesma necessidade para um texto literário original. Isto claramente alimenta a renda do mercado editorial, para o qual depois de alguns decênios se considera seriamente a necessidade de re-traduzir uma obra estrangeira numa língua mais atual – o que, por sinal, não enriquece necessariamente os tradutores que, evidentemente são de outra geração. Porém, raramente, ou nunca se considera a necessidade de se modernizar um Camões, ou um Shakespeare ou um Racine na sua língua de origem, embora se trate de línguas de fato bastante diferentes da língua contemporânea.
Lembro ter traduzido textos do final da Idade Média do francês para o português. Evidentemente não tive a ousadia de traduzi-los num português do século XIV ou XV, embora esteja fora de dúvida que perderam todo o sabor arcaizante que revestiam para um leitor francês dos dias de hoje. Porém, é verdade que para o leitor francês medieval, não havia nenhum perfume pitoresco arcaico!
Umberto Eco trata do caso de um manual de costura e de manutenção de interiores de casa publicado em Turim no século XIX, destinado a alunas de um orfanato, e observa o prazer que um leitor dos dias de hoje sente, ao ler um texto afinal técnico, porém que reveste para o leitor de hoje, um caráter absurdo, irônico, caricaturalmente paternalista e condescendente, obviamente muito longe das intenções do autor da época. Isto demonstra a autonomia da “obra”, que encontra o seu destino independentemente do seu autor.
De forma similar, poderíamos tecer muitas considerações a respeito de traduções de traduções, afinal tão comuns, sobretudo no Brasil...

6.       A defasagem temporal e geográfica.
A defasagem (ou seja, decalagem) temporal, evidentemente, pode ser causada pelo fato de que pode correr um intervalo de tempo notável entre a criação da obra original e a sua tradução em outra língua. A esse fator de distanciamento cultural se acrescenta outro devido à geografia, já que grande parte das línguas possui um enraizamento espacial – embora não seja sempre o caso – e que, por este motivo, o meio ambiente cultural pode diferenciar consideravelmente. São fatos que parecem evidentes, embora pudessem ser questionados e, sobretudo re-configurados, mas não é exatamente o ponto que queremos destacar aqui.
A defasagem temporal se combina com a defasem territorial, na medida que as línguas ditas “nacionais” se impuseram como línguas vernáculas oficiais sobretudo a partir do século XVIII (definitivamente, será? de fato o destino destas línguas-padrão parece estar seriamente questionado nos dias de hoje), e que a atividade da tradução se tornou importante na difusão (européia, e americana, pelo menos).
Voltaire, ao traduzir Shakespeare, contribuiu para tornar famoso um autor até então totalmente desconhecido na França. Entretanto, isto se deu graças a uma re-escritura dos dramas em inglês para torná-los palatáveis para o gosto clássico dos franceses. Hoje, a tradução de Voltaire nos parece chocante, não apenas pelo fato de ele, naturalmente, escrever na língua dele, que é a do século do Iluminismo, mas antes de tudo por aquilo que nos parece demonstrar um total desrespeito com Shakespeare, que de um autor barroco é transformado em dramaturgo que segue escrupulosamente as regras elementares do Classicismo, da ”justa medida” e do “bom tom”, o que desvirtua completamente o espírito monstruoso, excessivo e desmedido do autor...
A constituição dos estados nacionais, que geralmente, salvo raras exceções,se efetiva através da instrumentalização de uma língua que se torna o cimento do novo mito que chamamos de espírito nacional, de patriotismo, de resistência face ao vizinho imediato, que se torna um inimigo potencial, a construção das Nações teve, por conseqüência, uma recepção diferente de autores, que às vezes demoraram muito até serem traduzidos. Podemos citar a título de exemplo o caso de Norbert Elias, judeu alemão nascido em Breslau (hoje cidade polonesa sob o nome de Wroclaw), que se refugiou na França, onde morou bastante tempo, para finalmente se estabelecer no final da vida na Holanda. Escreveu em alemão, e se algumas das mais importantes das suas obras já foram publicadas em alemão antes da 2ª Guerra Mundial, ele de fato ficou conhecido na França apenas no final dos anos 70, ao contrário dos países de língua alemã. O interessante para nós agora é que a recepção, a interpretação e os comentários da obra dele são completamente diferentes na França e na Alemanha... já que no fundo ele foi publicado em épocas diferentes, com sensibilidades diferentes, em contextos bem distantes. Ou seja, trata-se da mesma obra, ou, de obras diferentes, um pouco a maneira do manual de Turim? [2]

7.       Tradução e circulação das ideias.

A circulação das idéias, nos tempos ditos modernos, é claramente determinada pela tradução das obras, e, sobretudo das condições que presidem à escolha das obras a serem traduzidas. Gisèle Sapiro, diretora de pesquisas no CNRS da França, publicou as suas reflexões sobre as condições e os obstáculos relacionados com a tradução[3].
O estudo descreve as funções ideológicas, econômicas e culturais da tradução, constituindo uma mediação intercultural por muitos atores e apoiada por múltiplas instituições, sejam elas estatais ou editoras particulares. Se a tradução de determinada obra é o veículo que assegura uma maior circulação da mesma, assim como a sua difusão no mundo, ela não deixa de encontrar freqüentemente obstáculos insuperáveis devidos por exemplo à censura política, ou a impossibilidades relacionadas com condições econômicas desastrosas, ou ainda barreiras culturais insuperáveis.
É interessante observar, por exemplo, que há um número extremamente pequeno de obras “ocidentais” traduzidas em árabe nos dias de hoje – embora, há séculos o árabe foi a língua na qual podiam se ler todos os grandes autores da Antiguidade grega ou latina. Os países da África do Norte, formando o Magrebe, embora não considerem o francês como sendo uma das suas línguas oficiais, são obrigados a adotar, no ensino secundário e superior, livros em francês. A maior parte das obras traduzidas em árabe – ou em tamazigh, já que começa a ser reconhecido como língua oficial na Argélia e no Marrocos – é clandestina, no sentido de que nunca se pagam direitos autorais...
Seria, aliás, outro tema a ser desenvolvido, o do plágio e dos direitos autorais. Observa-se que os direitos autorais são afinal uma “invenção” relativamente recente na história da escrita e da produção artística, científica e cultural em geral, contemporânea do desenvolvimento do capitalismo moderno. Esses direitos ficam hoje seriamente comprometidos, por causa principalmente dos meios modernos de difusão como a Internet, evidentemente, e de cada vez mais difícil repressão quando seriam violados. Aproveito para acrescentar aqui uma reflexão minha quanto aos fundamentos éticos de tais direitos, quando sabemos que todo indivíduo, afinal, não deixa de ser o produto da sua sociedade e dos seus tempos... Mas isto é ainda outra questão, a dos papeis recíprocos do meio-ambiente e da criatividade original do indivíduo, a ser desenvolvida em outra oportunidade, por não estar dentro das nossas preocupações aqui apresentadas!

8.       Desigualdade entre línguas.
As línguas são, nos dias de hoje, mais desiguais do que nunca. Já houve línguas que gozavam de uma universalidade relacionada sobretudo com a escrita, como o latim clássico ou religioso medieval. Entretanto, mesmo no tempo de Cícero, tal língua-padrão não constituía verdadeiramente a língua materna de ninguém[4]. Havia, e isto me parece a regra geral ao longo da história da humanidade ao redor do mundo, um mosaico de falares sem fronteiras definidas, que constituíam um continuum que tornavam inviável qualquer idéia de atlas lingüístico, como o demonstram as tentativas de Kurt NIMUENDAJU, no Brasil, ou de atlas lingüístico histórico tradicional com cores e limites definidos. Isto para dizer que a situação que nos parece hoje evidente, com fronteiras nacionais e lingüísticas, não passaria de uma ilusão positivista moderna, que, aliás, já parece fadada ao desaparecimento. Trata-se de um modelo que privilegia a hegemonia de uma língua, geralmente dita “nacional”, em detrimento das línguas realmente faladas pela maioria da população, qualificadas (ou melhor, desqualificadas!) como línguas populares incorretas, dialetos ou patuás pitorescos, no melhor dos casos.
Entretanto, essa hierarquia que escalona línguas centrais e periféricas, como tenta descrever o lingüista francês Louis-Jean CALVET, parecer viver os seus últimos tempos, Com efeito, assistimos paralelamente à ascensão de muitas variedades que nem sempre realizam o renascimento de antigos dialetos, mas o aparecimento de novos falares, que até se beneficiam de modalidades escritas, graças a popularização da internet. É claro que tais mudanças vão obrigar a repensar o papel da tradução – e da literatura, também – num prazo não muito distante.
No panorama mundial, há uma língua cada vez mais universal, o inglês, que, entretanto, é a língua materna de cada vez menos seres humanos. Porém, esta língua universal se torna cada vez mais um pidgin, linguagem simplificada usada por todos, cuja expressividade se torna, entretanto cada vez menos complexa, ou mais simplória. Enfim, seria uma espécie de latim tardio dos nossos tempos. Nas ciências, tanto exatas como humanas, esta “língua” está cada vez mais em uso, apesar de algumas resistências da retaguarda.

9.       Concluindo ilustrando defasagens e conseqüências.
Para terminar, gostaria ainda de ilustrar como as defasagens entre as publicações originais e as suas traduções acarretam conseqüências culturais relativamente dramáticas de tal situação.
Até recentemente, na França se considerava que não havia filosofia propriamente americana, que era tratada de “plouquerie”, até, isto é, de “babaquice”, com muita seriedade! Há pouco tempo começaram a serem traduzidas obras de Charles SANDERS ou de John DEWEY, por exemplo, e a já velha filosofia dita analítica ou pragmática constitui uma novidade na cultura da França. O mesmo se pode dizer da linguística funcional sistêmica ou dos estudos culturais ditos cultural studies, com grandes nomes como Michael HALLIDAY ou Stuart HALL.
A conclusão é que as barreiras estanques entre as disciplinas devem ser derrubadas o quanto antes, sob pena de acarretar lamentáveis atrasos e preconceitos, e que por enquanto a tradução continua sendo uma atividade que realiza tarefas urgentes, pelas quais as línguas podem realizar a sua função de comunicação, enquanto pode, num mesmo movimento, minimizar o seu papel identitário, cuja conseqüência funesta é a mobilização do que se costumou chamar de nacionalismo, que ergue os povos uns contra os outros...



[1] Vale aqui observar que aquilo que se chama de “identidade” poderia perfeitamente ser chamada de “alteridade”, isto é, o conjunto de traços que nos torna “outro”, como, aliás, acontece na língua árabe, quando foram traduzidos as obras do filósofos gregos.
[2] Vale a pena citar, entre numerosos exemplos, o de Franz Kafka, escritor “tcheca”... de língua alemã (na verdade a república tcheca nem existia, ele era apena um súdito do império austro-húngaro. E será o Goethe um escrito saxônico... de língua alemã (lembrando que a Alemanha política apenas existe desde 1870)?
[3] "Traduire la littérature et les sciences humaines : conditions et obstacles" (Editions du Ministère de la Culture et de la Communication - Documentation française) - e "Quelles sont les raisons de traduire ou de ne pas traduire une oeuvre ? - Coleção "Questions de culture"- Préface de David Fajolles.

[4] Vale lembrar também, como o observa a latinista Florence Dupont, que Roma era antes de tudo uma grande cidade helenística, onde todas as línguas da periferia mediterrânea eram faladas, e que a língua que mais se podia ouvir era uma mescla essencialmente latino-helênica, como o demonstram os verbos parlare ou parler, do grego latinizado parabolare