Eis aí a proposta de discussão de Pierre Guisan, que estavamos esperando!!!
Pessoalmente, acho muito estimulante reservar um, pouco do tempo para começar uma discussão, utilizando o texto do Pierre come base...
Lidar com questões relativas à língua é algo fascinante. Sabemos (por sermos docentes e por termos mais do que 30 anos) que a interpretação da relação língua-cultura , por ex. (o tema que mais me interessa) é bem variada, aliás: inclui muitas opções ou melhor: infinitas.
proposta de discussão (texto revisado por Pierre: 5/6/13)
AS
LÍNGUAS E AS SUAS TRADUÇÕES: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS SUAS FUNÇÕES E AS
SUAS REPRESENTAÇÕES
revisado 5-6-2013
Pierre Guisan
UFRJ
Seguem algumas observações a
respeito da complexa relação entre línguas e tradução, agrupadas aqui em nove
pontos
1.
O foco: A instrumentalização das línguas,
e a função da tradução neste contexto.
A língua é geralmente vista como
um sistema de comunicação, realizado segundo duas modalidades: a oral e a
escrita. Estudada certamente desde que o homem existe, ela apresenta uma particularidade
própria: ela é o único objeto de estudo que usa como ferramenta de investigação
a si própria. Só temos como ferramenta a língua para pesquisar a língua, e para
expressar as hipóteses, as análises e os resultados. Quando estudado, o objeto
é geralmente isolado, daí a tendência em considerá-lo como uma realidade
neutra. Tal abordagem não deixa de ser justificada numa primeira etapa das
investigações – e assim rezam as aulas da Lingüística
Geral de Saussure.
Entretanto, pela sua própria
natureza comunicativa, a língua é um instrumento em contato permanente com
todos os aspectos da realidade que a cercam. De forma que a linguística, no seu
conjunto, não faz nenhum sentido se não for social, interdisciplinar e
conectada com todas as dimensões da atividade humana. Por sinal, a nosso ver, o
mesmo se pode dizer daquilo que costumamos chamar de literatura.
A fortiori, a tradução, e a reflexão que se constrói a respeito
dela, que considera o contato entre duas ou mais línguas diferentes, vai ainda
reforçar a necessidade de se trabalhar numa perspectiva transdisciplinar, logo
de cooperação permanente com todos os pesquisadores e agentes envolvidos.
2.
As
duas funções paradoxais da língua: comunicação e identidade.
Nesta etapa, é importante lembrar
aqui uma realidade primordial, e todos os estudiosos da tradução e da língua em
geral nunca devem deixar de ter presente na mente tal realidade: as línguas
possuem duas funções principais, que atuam simultaneamente e de forma
permanente, embora sejam paradoxalmente opostas: a comunicação e a manutenção
da identidade social – e, logo, cultural.
A primeira função, comunicativa,
é óbvia: a língua serve para os seres humanos entrar em contato, sinalizar a
sua presença, trocar mensagens, manifestar afetos. Geralmente isto se dá entre
indivíduos, embora umas formas de discurso possam ocorrer entre um indivíduo e
uma comunidade, que tanto pode ser uma platéia, um público presente fisicamente
ou virtualmente, mas também um grupo socialmente definido, ou ainda um povo,
uma nação, por exemplo. Aí é que a delimitação do público-alvo se torna mais
complexo, já que a sua definição se torna em grande parte ideológica, ou seja,
dependendo justamente de um discurso prévio que contribuiu para moldar o
conceito. Assim já se constata o caráter dialético, variável, ideológico e freqüentemente
inconsistente da definição de muitos conceitos ou noções em uso nos discursos
sobre as línguas e as traduções. Porém, de forma aproximada, podemos afirmar
que a fonte primária do discurso seria um indivíduo, que se dirige para outro
indivíduo, ou para um conjunto de indivíduos, uma coletividade real ou
imaginada[1].
Por este motivo, no caso o uso
formal comunicativo da língua e da sua realização através da formulação
discursivo de um autor-indivíduo, deixa geralmente em segundo plano, e um tanto
esquecida a outra função essencial da língua, que é o seu papel de instrumento
de reconhecimento entre os
indivíduos de determinada coletividade, ou seja, a sua função identitária. Ora,
como se define uma identidade coletiva? Pode ser de forma positiva, construindo
mitos baseados em crenças, histórias ou lendas. Mas acontece que a identidade é
muito mais facilmente elaborada “negativamente”, isto é, destacando diferenças
com os vizinhos, os próximos, em outras palavras estigmatizando o Outro, que
pode assim facilmente se tornar o rival, o adversário, o inimigo. É assim que a
língua, longe de ser uma ferramenta para a comunicação ou a aproximação, vai se
tornar um instrumento identitário de divisão e de distanciamento com o Outro.
Dito de outra forma, podemos afirmar que na medida em que a língua se torna o
meio de reconhecimento entre determinados indivíduos, tem que se tornar
obrigatoriamente um instrumento de divisão entre coletividade, regiões, países
ou, como dizemos modernamente, nações.
3.
Tradução
e visão do mundo, religião e/ou política.
Com essas considerações,
conseguimos vislumbrar um papel grandioso para a tradução: o de superar a
função divisora que as diferentes línguas podem preencher: “ein Volk, ein Reich, ein Führer... une eine Sprache” (“um povo,
uma nação, um guia... e uma língua”)! Os nazistas, aliás, quando quiseram impor
o nome Fernsprecher para substituir o
tradicional Telefon nas cabines de
telefones públicos nas ruas, tentaram fazer da tradução a sua aliada na sua
luta contra os estrangeirismos, considerados vírus ameaçadores para a pureza
alemã... Mas a palavra grega internacional voltou às ruas após a derrota de
1945. Entretanto não foi o caso de Fernsehen
(televisão), que foi inventada durante a ditadura nazista, assim como a palavra
que já havia se imposta no uso popular.
Pessoalmente costumo comparar
língua com religião, cujos papeis sócio-políticos são bastante semelhantes, já
que ambos tratam de assegurar a coesão de determinada comunidade, tanto
horizontalmente, entre os indivíduos que a compõem em determinado momento,
quanto verticalmente, transmitindo o sistema de valores compartilhados de uma
geração para a outra – o que é da responsabilidade da educação.
4.
Tradução
literária X tradução técnica: a distinção faz sentido?
Há em particular um ponto freqüentemente
citado, a respeito do qual faço questão de manifestar a minha crítica, na
medida em que me parece precisamente demonstrar uma visão distorcida ou estigmatizante
dos estudos de tradutologia: a visão que separa a tradução “literária” da
tradução dita “técnica”. Já evoquei em outras oportunidades esta questão, de
modo que não vou me delongar no tema. Basta apenas lembrar que não é
propriamente o processo da tradução que difere, mas antes o texto a ser
traduzido. Sabemos todos que um texto literário se caracteriza antes de tudo
por ser “plural”, isto é, de uma riqueza de interpretações renovadas a cada
leitura. Tal pluralidade vem naturalmente a constituir um grave defeito quando
se considera um texto de características técnicas, quando a univocidade
singular de interpretação, ao contrário, se torna uma qualidade indispensável –
é só de se pensar na pluralidade de interpretações de um manual de um forno de
micro-ondas coreano, e das catástrofes que dessas interpretações decorreriam!
5.
O
envelhecimento das traduções – e traduções de traduções.
Curiosamente, considera-se como
evidência a necessidade de se “modernizar” a tradução de um texto determinado,
enquanto raramente se questiona a mesma necessidade para um texto literário
original. Isto claramente alimenta a renda do mercado editorial, para o qual
depois de alguns decênios se considera seriamente a necessidade de re-traduzir
uma obra estrangeira numa língua mais atual – o que, por sinal, não enriquece
necessariamente os tradutores que, evidentemente são de outra geração. Porém,
raramente, ou nunca se considera a necessidade de se modernizar um Camões, ou
um Shakespeare ou um Racine na sua língua de origem, embora se trate de línguas
de fato bastante diferentes da língua contemporânea.
Lembro ter traduzido textos do
final da Idade Média do francês para o português. Evidentemente não tive a
ousadia de traduzi-los num português do século XIV ou XV, embora esteja fora de
dúvida que perderam todo o sabor arcaizante que revestiam para um leitor
francês dos dias de hoje. Porém, é verdade que para o leitor francês medieval,
não havia nenhum perfume pitoresco arcaico!
Umberto Eco trata do caso de um
manual de costura e de manutenção de interiores de casa publicado em Turim no
século XIX, destinado a alunas de um orfanato, e observa o prazer que um leitor
dos dias de hoje sente, ao ler um texto afinal técnico, porém que reveste para
o leitor de hoje, um caráter absurdo, irônico, caricaturalmente paternalista e
condescendente, obviamente muito longe das intenções do autor da época. Isto
demonstra a autonomia da “obra”, que encontra o seu destino independentemente
do seu autor.
De forma similar, poderíamos
tecer muitas considerações a respeito de traduções de traduções, afinal tão
comuns, sobretudo no Brasil...
6.
A
defasagem temporal e geográfica.
A defasagem (ou seja, decalagem)
temporal, evidentemente, pode ser causada pelo fato de que pode correr um intervalo
de tempo notável entre a criação da obra original e a sua tradução em outra
língua. A esse fator de distanciamento cultural se acrescenta outro devido à
geografia, já que grande parte das línguas possui um enraizamento espacial –
embora não seja sempre o caso – e que, por este motivo, o meio ambiente
cultural pode diferenciar consideravelmente. São fatos que parecem evidentes,
embora pudessem ser questionados e, sobretudo re-configurados, mas não é
exatamente o ponto que queremos destacar aqui.
A defasagem temporal se combina
com a defasem territorial, na medida que as línguas ditas “nacionais” se
impuseram como línguas vernáculas oficiais sobretudo a partir do século XVIII
(definitivamente, será? de fato o destino destas línguas-padrão parece estar seriamente
questionado nos dias de hoje), e que a atividade da tradução se tornou
importante na difusão (européia, e americana, pelo menos).
Voltaire, ao traduzir
Shakespeare, contribuiu para tornar famoso um autor até então totalmente
desconhecido na França. Entretanto, isto se deu graças a uma re-escritura dos
dramas em inglês para torná-los palatáveis para o gosto clássico dos franceses.
Hoje, a tradução de Voltaire nos parece chocante, não apenas pelo fato de ele,
naturalmente, escrever na língua dele, que é a do século do Iluminismo, mas
antes de tudo por aquilo que nos parece demonstrar um total desrespeito com
Shakespeare, que de um autor barroco é transformado em dramaturgo que segue
escrupulosamente as regras elementares do Classicismo, da ”justa medida” e do
“bom tom”, o que desvirtua completamente o espírito monstruoso, excessivo e
desmedido do autor...
A constituição dos estados
nacionais, que geralmente, salvo raras exceções,se efetiva através da
instrumentalização de uma língua que se torna o cimento do novo mito que
chamamos de espírito nacional, de patriotismo, de resistência face ao vizinho
imediato, que se torna um inimigo potencial, a construção das Nações teve, por conseqüência,
uma recepção diferente de autores, que às vezes demoraram muito até serem
traduzidos. Podemos citar a título de exemplo o caso de Norbert Elias, judeu
alemão nascido em Breslau (hoje cidade polonesa sob o nome de Wroclaw), que se
refugiou na França, onde morou bastante tempo, para finalmente se estabelecer
no final da vida na Holanda. Escreveu em alemão, e se algumas das mais
importantes das suas obras já foram publicadas em alemão antes da 2ª Guerra
Mundial, ele de fato ficou conhecido na França apenas no final dos anos 70, ao
contrário dos países de língua alemã. O interessante para nós agora é que a
recepção, a interpretação e os comentários da obra dele são completamente
diferentes na França e na Alemanha... já que no fundo ele foi publicado em
épocas diferentes, com sensibilidades diferentes, em contextos bem distantes.
Ou seja, trata-se da mesma obra, ou, de obras diferentes, um pouco a maneira do
manual de Turim? [2]
7.
Tradução
e circulação das ideias.
A circulação das idéias, nos
tempos ditos modernos, é claramente determinada pela tradução das obras, e,
sobretudo das condições que presidem à escolha das obras a serem traduzidas.
Gisèle Sapiro, diretora de pesquisas no CNRS da França, publicou as suas
reflexões sobre as condições e os obstáculos relacionados com a tradução[3].
O estudo descreve as funções
ideológicas, econômicas e culturais da tradução, constituindo uma mediação
intercultural por muitos atores e apoiada por múltiplas instituições, sejam
elas estatais ou editoras particulares. Se a tradução de determinada obra é o
veículo que assegura uma maior circulação da mesma, assim como a sua difusão no
mundo, ela não deixa de encontrar freqüentemente obstáculos insuperáveis
devidos por exemplo à censura política, ou a impossibilidades relacionadas com
condições econômicas desastrosas, ou ainda barreiras culturais insuperáveis.
É interessante observar, por
exemplo, que há um número extremamente pequeno de obras “ocidentais” traduzidas
em árabe nos dias de hoje – embora, há séculos o árabe foi a língua na qual
podiam se ler todos os grandes autores da Antiguidade grega ou latina. Os
países da África do Norte, formando o Magrebe, embora não considerem o francês
como sendo uma das suas línguas oficiais, são obrigados a adotar, no ensino
secundário e superior, livros em francês. A maior parte das obras traduzidas em
árabe – ou em tamazigh, já que começa a ser reconhecido como língua oficial na
Argélia e no Marrocos – é clandestina, no sentido de que nunca se pagam
direitos autorais...
Seria, aliás, outro tema a ser
desenvolvido, o do plágio e dos direitos autorais. Observa-se que os direitos
autorais são afinal uma “invenção” relativamente recente na história da escrita
e da produção artística, científica e cultural em geral, contemporânea do
desenvolvimento do capitalismo moderno. Esses direitos ficam hoje seriamente
comprometidos, por causa principalmente dos meios modernos de difusão como a
Internet, evidentemente, e de cada vez mais difícil repressão quando seriam
violados. Aproveito para acrescentar aqui uma reflexão minha quanto aos
fundamentos éticos de tais direitos, quando sabemos que todo indivíduo, afinal,
não deixa de ser o produto da sua sociedade e dos seus tempos... Mas isto é
ainda outra questão, a dos papeis recíprocos do meio-ambiente e da criatividade
original do indivíduo, a ser desenvolvida em outra oportunidade, por não estar
dentro das nossas preocupações aqui apresentadas!
8.
Desigualdade
entre línguas.
As línguas são, nos dias de hoje,
mais desiguais do que nunca. Já houve línguas que gozavam de uma universalidade
relacionada sobretudo com a escrita, como o latim clássico ou religioso
medieval. Entretanto, mesmo no tempo de Cícero, tal língua-padrão não
constituía verdadeiramente a língua materna de ninguém[4].
Havia, e isto me parece a regra geral ao longo da história da humanidade ao
redor do mundo, um mosaico de falares sem fronteiras definidas, que constituíam
um continuum que tornavam inviável
qualquer idéia de atlas lingüístico, como o demonstram as tentativas de Kurt
NIMUENDAJU, no Brasil, ou de atlas lingüístico histórico tradicional com cores
e limites definidos. Isto para dizer que a situação que nos parece hoje
evidente, com fronteiras nacionais e lingüísticas, não passaria de uma ilusão
positivista moderna, que, aliás, já parece fadada ao desaparecimento. Trata-se
de um modelo que privilegia a hegemonia de uma língua, geralmente dita
“nacional”, em detrimento das línguas realmente faladas pela maioria da
população, qualificadas (ou melhor, desqualificadas!) como línguas populares
incorretas, dialetos ou patuás pitorescos, no melhor dos casos.
Entretanto, essa hierarquia que
escalona línguas centrais e periféricas, como tenta descrever o lingüista
francês Louis-Jean CALVET, parecer viver os seus últimos tempos, Com efeito, assistimos
paralelamente à ascensão de muitas variedades que nem sempre realizam o
renascimento de antigos dialetos, mas o aparecimento de novos falares, que até
se beneficiam de modalidades escritas, graças a popularização da internet. É
claro que tais mudanças vão obrigar a repensar o papel da tradução – e da
literatura, também – num prazo não muito distante.
No panorama mundial, há uma
língua cada vez mais universal, o inglês, que, entretanto, é a língua materna
de cada vez menos seres humanos. Porém, esta língua universal se torna cada vez
mais um pidgin, linguagem simplificada
usada por todos, cuja expressividade se torna, entretanto cada vez menos
complexa, ou mais simplória. Enfim, seria uma espécie de latim tardio dos
nossos tempos. Nas ciências, tanto exatas como humanas, esta “língua” está cada
vez mais em uso, apesar de algumas resistências da retaguarda.
9.
Concluindo
ilustrando defasagens e conseqüências.
Para terminar, gostaria ainda de
ilustrar como as defasagens entre as publicações originais e as suas traduções
acarretam conseqüências culturais relativamente dramáticas de tal situação.
Até recentemente, na França se
considerava que não havia filosofia propriamente americana, que era tratada de “plouquerie”, até, isto é, de “babaquice”,
com muita seriedade! Há pouco tempo começaram a serem traduzidas obras de
Charles SANDERS ou de John DEWEY, por exemplo, e a já velha filosofia dita
analítica ou pragmática constitui uma novidade na cultura da França. O mesmo se
pode dizer da linguística funcional sistêmica ou dos estudos culturais ditos cultural studies, com grandes nomes como
Michael HALLIDAY ou Stuart HALL.
A conclusão é que as barreiras
estanques entre as disciplinas devem ser derrubadas o quanto antes, sob pena de
acarretar lamentáveis atrasos e preconceitos, e que por enquanto a tradução
continua sendo uma atividade que realiza tarefas urgentes, pelas quais as
línguas podem realizar a sua função de comunicação, enquanto pode, num mesmo
movimento, minimizar o seu papel identitário, cuja conseqüência funesta é a
mobilização do que se costumou chamar de nacionalismo, que ergue os povos uns
contra os outros...
[1]
Vale aqui observar que aquilo que se chama de “identidade” poderia
perfeitamente ser chamada de “alteridade”, isto é, o conjunto de traços que nos
torna “outro”, como, aliás, acontece na língua árabe, quando foram traduzidos
as obras do filósofos gregos.
[2]
Vale a pena citar, entre numerosos exemplos, o de Franz Kafka, escritor
“tcheca”... de língua alemã (na verdade a república tcheca nem existia, ele era
apena um súdito do império austro-húngaro. E será o Goethe um escrito
saxônico... de língua alemã (lembrando que a Alemanha política apenas existe
desde 1870)?
[3] "Traduire la littérature et les sciences humaines :
conditions et obstacles" (Editions du Ministère de la
Culture et de la Communication - Documentation française) - e "Quelles sont les raisons de traduire ou de ne
pas traduire une oeuvre ? - Coleção
"Questions de culture"- Préface de David Fajolles.
[4]
Vale lembrar também, como o observa a latinista Florence Dupont, que Roma era
antes de tudo uma grande cidade helenística, onde todas as línguas da periferia
mediterrânea eram faladas, e que a língua que mais se podia ouvir era uma
mescla essencialmente latino-helênica, como o demonstram os verbos parlare ou parler, do grego latinizado parabolare.
AS
LÍNGUAS E AS SUAS TRADUÇÕES: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS SUAS FUNÇÕES E AS
SUAS REPRESENTAÇÕES
revisado 5-6-2013
Pierre Guisan
UFRJ
Seguem algumas observações a
respeito da complexa relação entre línguas e tradução, agrupadas aqui em nove
pontos
1.
O foco: A instrumentalização das línguas,
e a função da tradução neste contexto.
A língua é geralmente vista como
um sistema de comunicação, realizado segundo duas modalidades: a oral e a
escrita. Estudada certamente desde que o homem existe, ela apresenta uma particularidade
própria: ela é o único objeto de estudo que usa como ferramenta de investigação
a si própria. Só temos como ferramenta a língua para pesquisar a língua, e para
expressar as hipóteses, as análises e os resultados. Quando estudado, o objeto
é geralmente isolado, daí a tendência em considerá-lo como uma realidade
neutra. Tal abordagem não deixa de ser justificada numa primeira etapa das
investigações – e assim rezam as aulas da Lingüística
Geral de Saussure.
Entretanto, pela sua própria
natureza comunicativa, a língua é um instrumento em contato permanente com
todos os aspectos da realidade que a cercam. De forma que a linguística, no seu
conjunto, não faz nenhum sentido se não for social, interdisciplinar e
conectada com todas as dimensões da atividade humana. Por sinal, a nosso ver, o
mesmo se pode dizer daquilo que costumamos chamar de literatura.
A fortiori, a tradução, e a reflexão que se constrói a respeito
dela, que considera o contato entre duas ou mais línguas diferentes, vai ainda
reforçar a necessidade de se trabalhar numa perspectiva transdisciplinar, logo
de cooperação permanente com todos os pesquisadores e agentes envolvidos.
2.
As
duas funções paradoxais da língua: comunicação e identidade.
Nesta etapa, é importante lembrar
aqui uma realidade primordial, e todos os estudiosos da tradução e da língua em
geral nunca devem deixar de ter presente na mente tal realidade: as línguas
possuem duas funções principais, que atuam simultaneamente e de forma
permanente, embora sejam paradoxalmente opostas: a comunicação e a manutenção
da identidade social – e, logo, cultural.
A primeira função, comunicativa,
é óbvia: a língua serve para os seres humanos entrar em contato, sinalizar a
sua presença, trocar mensagens, manifestar afetos. Geralmente isto se dá entre
indivíduos, embora umas formas de discurso possam ocorrer entre um indivíduo e
uma comunidade, que tanto pode ser uma platéia, um público presente fisicamente
ou virtualmente, mas também um grupo socialmente definido, ou ainda um povo,
uma nação, por exemplo. Aí é que a delimitação do público-alvo se torna mais
complexo, já que a sua definição se torna em grande parte ideológica, ou seja,
dependendo justamente de um discurso prévio que contribuiu para moldar o
conceito. Assim já se constata o caráter dialético, variável, ideológico e freqüentemente
inconsistente da definição de muitos conceitos ou noções em uso nos discursos
sobre as línguas e as traduções. Porém, de forma aproximada, podemos afirmar
que a fonte primária do discurso seria um indivíduo, que se dirige para outro
indivíduo, ou para um conjunto de indivíduos, uma coletividade real ou
imaginada[1].
Por este motivo, no caso o uso
formal comunicativo da língua e da sua realização através da formulação
discursivo de um autor-indivíduo, deixa geralmente em segundo plano, e um tanto
esquecida a outra função essencial da língua, que é o seu papel de instrumento
de reconhecimento entre os
indivíduos de determinada coletividade, ou seja, a sua função identitária. Ora,
como se define uma identidade coletiva? Pode ser de forma positiva, construindo
mitos baseados em crenças, histórias ou lendas. Mas acontece que a identidade é
muito mais facilmente elaborada “negativamente”, isto é, destacando diferenças
com os vizinhos, os próximos, em outras palavras estigmatizando o Outro, que
pode assim facilmente se tornar o rival, o adversário, o inimigo. É assim que a
língua, longe de ser uma ferramenta para a comunicação ou a aproximação, vai se
tornar um instrumento identitário de divisão e de distanciamento com o Outro.
Dito de outra forma, podemos afirmar que na medida em que a língua se torna o
meio de reconhecimento entre determinados indivíduos, tem que se tornar
obrigatoriamente um instrumento de divisão entre coletividade, regiões, países
ou, como dizemos modernamente, nações.
3.
Tradução
e visão do mundo, religião e/ou política.
Com essas considerações,
conseguimos vislumbrar um papel grandioso para a tradução: o de superar a
função divisora que as diferentes línguas podem preencher: “ein Volk, ein Reich, ein Führer... une eine Sprache” (“um povo,
uma nação, um guia... e uma língua”)! Os nazistas, aliás, quando quiseram impor
o nome Fernsprecher para substituir o
tradicional Telefon nas cabines de
telefones públicos nas ruas, tentaram fazer da tradução a sua aliada na sua
luta contra os estrangeirismos, considerados vírus ameaçadores para a pureza
alemã... Mas a palavra grega internacional voltou às ruas após a derrota de
1945. Entretanto não foi o caso de Fernsehen
(televisão), que foi inventada durante a ditadura nazista, assim como a palavra
que já havia se imposta no uso popular.
Pessoalmente costumo comparar
língua com religião, cujos papeis sócio-políticos são bastante semelhantes, já
que ambos tratam de assegurar a coesão de determinada comunidade, tanto
horizontalmente, entre os indivíduos que a compõem em determinado momento,
quanto verticalmente, transmitindo o sistema de valores compartilhados de uma
geração para a outra – o que é da responsabilidade da educação.
4.
Tradução
literária X tradução técnica: a distinção faz sentido?
Há em particular um ponto freqüentemente
citado, a respeito do qual faço questão de manifestar a minha crítica, na
medida em que me parece precisamente demonstrar uma visão distorcida ou estigmatizante
dos estudos de tradutologia: a visão que separa a tradução “literária” da
tradução dita “técnica”. Já evoquei em outras oportunidades esta questão, de
modo que não vou me delongar no tema. Basta apenas lembrar que não é
propriamente o processo da tradução que difere, mas antes o texto a ser
traduzido. Sabemos todos que um texto literário se caracteriza antes de tudo
por ser “plural”, isto é, de uma riqueza de interpretações renovadas a cada
leitura. Tal pluralidade vem naturalmente a constituir um grave defeito quando
se considera um texto de características técnicas, quando a univocidade
singular de interpretação, ao contrário, se torna uma qualidade indispensável –
é só de se pensar na pluralidade de interpretações de um manual de um forno de
micro-ondas coreano, e das catástrofes que dessas interpretações decorreriam!
5.
O
envelhecimento das traduções – e traduções de traduções.
Curiosamente, considera-se como
evidência a necessidade de se “modernizar” a tradução de um texto determinado,
enquanto raramente se questiona a mesma necessidade para um texto literário
original. Isto claramente alimenta a renda do mercado editorial, para o qual
depois de alguns decênios se considera seriamente a necessidade de re-traduzir
uma obra estrangeira numa língua mais atual – o que, por sinal, não enriquece
necessariamente os tradutores que, evidentemente são de outra geração. Porém,
raramente, ou nunca se considera a necessidade de se modernizar um Camões, ou
um Shakespeare ou um Racine na sua língua de origem, embora se trate de línguas
de fato bastante diferentes da língua contemporânea.
Lembro ter traduzido textos do
final da Idade Média do francês para o português. Evidentemente não tive a
ousadia de traduzi-los num português do século XIV ou XV, embora esteja fora de
dúvida que perderam todo o sabor arcaizante que revestiam para um leitor
francês dos dias de hoje. Porém, é verdade que para o leitor francês medieval,
não havia nenhum perfume pitoresco arcaico!
Umberto Eco trata do caso de um
manual de costura e de manutenção de interiores de casa publicado em Turim no
século XIX, destinado a alunas de um orfanato, e observa o prazer que um leitor
dos dias de hoje sente, ao ler um texto afinal técnico, porém que reveste para
o leitor de hoje, um caráter absurdo, irônico, caricaturalmente paternalista e
condescendente, obviamente muito longe das intenções do autor da época. Isto
demonstra a autonomia da “obra”, que encontra o seu destino independentemente
do seu autor.
De forma similar, poderíamos
tecer muitas considerações a respeito de traduções de traduções, afinal tão
comuns, sobretudo no Brasil...
6.
A
defasagem temporal e geográfica.
A defasagem (ou seja, decalagem)
temporal, evidentemente, pode ser causada pelo fato de que pode correr um intervalo
de tempo notável entre a criação da obra original e a sua tradução em outra
língua. A esse fator de distanciamento cultural se acrescenta outro devido à
geografia, já que grande parte das línguas possui um enraizamento espacial –
embora não seja sempre o caso – e que, por este motivo, o meio ambiente
cultural pode diferenciar consideravelmente. São fatos que parecem evidentes,
embora pudessem ser questionados e, sobretudo re-configurados, mas não é
exatamente o ponto que queremos destacar aqui.
A defasagem temporal se combina
com a defasem territorial, na medida que as línguas ditas “nacionais” se
impuseram como línguas vernáculas oficiais sobretudo a partir do século XVIII
(definitivamente, será? de fato o destino destas línguas-padrão parece estar seriamente
questionado nos dias de hoje), e que a atividade da tradução se tornou
importante na difusão (européia, e americana, pelo menos).
Voltaire, ao traduzir
Shakespeare, contribuiu para tornar famoso um autor até então totalmente
desconhecido na França. Entretanto, isto se deu graças a uma re-escritura dos
dramas em inglês para torná-los palatáveis para o gosto clássico dos franceses.
Hoje, a tradução de Voltaire nos parece chocante, não apenas pelo fato de ele,
naturalmente, escrever na língua dele, que é a do século do Iluminismo, mas
antes de tudo por aquilo que nos parece demonstrar um total desrespeito com
Shakespeare, que de um autor barroco é transformado em dramaturgo que segue
escrupulosamente as regras elementares do Classicismo, da ”justa medida” e do
“bom tom”, o que desvirtua completamente o espírito monstruoso, excessivo e
desmedido do autor...
A constituição dos estados
nacionais, que geralmente, salvo raras exceções,se efetiva através da
instrumentalização de uma língua que se torna o cimento do novo mito que
chamamos de espírito nacional, de patriotismo, de resistência face ao vizinho
imediato, que se torna um inimigo potencial, a construção das Nações teve, por conseqüência,
uma recepção diferente de autores, que às vezes demoraram muito até serem
traduzidos. Podemos citar a título de exemplo o caso de Norbert Elias, judeu
alemão nascido em Breslau (hoje cidade polonesa sob o nome de Wroclaw), que se
refugiou na França, onde morou bastante tempo, para finalmente se estabelecer
no final da vida na Holanda. Escreveu em alemão, e se algumas das mais
importantes das suas obras já foram publicadas em alemão antes da 2ª Guerra
Mundial, ele de fato ficou conhecido na França apenas no final dos anos 70, ao
contrário dos países de língua alemã. O interessante para nós agora é que a
recepção, a interpretação e os comentários da obra dele são completamente
diferentes na França e na Alemanha... já que no fundo ele foi publicado em
épocas diferentes, com sensibilidades diferentes, em contextos bem distantes.
Ou seja, trata-se da mesma obra, ou, de obras diferentes, um pouco a maneira do
manual de Turim? [2]
7.
Tradução
e circulação das ideias.
A circulação das idéias, nos
tempos ditos modernos, é claramente determinada pela tradução das obras, e,
sobretudo das condições que presidem à escolha das obras a serem traduzidas.
Gisèle Sapiro, diretora de pesquisas no CNRS da França, publicou as suas
reflexões sobre as condições e os obstáculos relacionados com a tradução[3].
O estudo descreve as funções
ideológicas, econômicas e culturais da tradução, constituindo uma mediação
intercultural por muitos atores e apoiada por múltiplas instituições, sejam
elas estatais ou editoras particulares. Se a tradução de determinada obra é o
veículo que assegura uma maior circulação da mesma, assim como a sua difusão no
mundo, ela não deixa de encontrar freqüentemente obstáculos insuperáveis
devidos por exemplo à censura política, ou a impossibilidades relacionadas com
condições econômicas desastrosas, ou ainda barreiras culturais insuperáveis.
É interessante observar, por
exemplo, que há um número extremamente pequeno de obras “ocidentais” traduzidas
em árabe nos dias de hoje – embora, há séculos o árabe foi a língua na qual
podiam se ler todos os grandes autores da Antiguidade grega ou latina. Os
países da África do Norte, formando o Magrebe, embora não considerem o francês
como sendo uma das suas línguas oficiais, são obrigados a adotar, no ensino
secundário e superior, livros em francês. A maior parte das obras traduzidas em
árabe – ou em tamazigh, já que começa a ser reconhecido como língua oficial na
Argélia e no Marrocos – é clandestina, no sentido de que nunca se pagam
direitos autorais...
Seria, aliás, outro tema a ser
desenvolvido, o do plágio e dos direitos autorais. Observa-se que os direitos
autorais são afinal uma “invenção” relativamente recente na história da escrita
e da produção artística, científica e cultural em geral, contemporânea do
desenvolvimento do capitalismo moderno. Esses direitos ficam hoje seriamente
comprometidos, por causa principalmente dos meios modernos de difusão como a
Internet, evidentemente, e de cada vez mais difícil repressão quando seriam
violados. Aproveito para acrescentar aqui uma reflexão minha quanto aos
fundamentos éticos de tais direitos, quando sabemos que todo indivíduo, afinal,
não deixa de ser o produto da sua sociedade e dos seus tempos... Mas isto é
ainda outra questão, a dos papeis recíprocos do meio-ambiente e da criatividade
original do indivíduo, a ser desenvolvida em outra oportunidade, por não estar
dentro das nossas preocupações aqui apresentadas!
8.
Desigualdade
entre línguas.
As línguas são, nos dias de hoje,
mais desiguais do que nunca. Já houve línguas que gozavam de uma universalidade
relacionada sobretudo com a escrita, como o latim clássico ou religioso
medieval. Entretanto, mesmo no tempo de Cícero, tal língua-padrão não
constituía verdadeiramente a língua materna de ninguém[4].
Havia, e isto me parece a regra geral ao longo da história da humanidade ao
redor do mundo, um mosaico de falares sem fronteiras definidas, que constituíam
um continuum que tornavam inviável
qualquer idéia de atlas lingüístico, como o demonstram as tentativas de Kurt
NIMUENDAJU, no Brasil, ou de atlas lingüístico histórico tradicional com cores
e limites definidos. Isto para dizer que a situação que nos parece hoje
evidente, com fronteiras nacionais e lingüísticas, não passaria de uma ilusão
positivista moderna, que, aliás, já parece fadada ao desaparecimento. Trata-se
de um modelo que privilegia a hegemonia de uma língua, geralmente dita
“nacional”, em detrimento das línguas realmente faladas pela maioria da
população, qualificadas (ou melhor, desqualificadas!) como línguas populares
incorretas, dialetos ou patuás pitorescos, no melhor dos casos.
Entretanto, essa hierarquia que
escalona línguas centrais e periféricas, como tenta descrever o lingüista
francês Louis-Jean CALVET, parecer viver os seus últimos tempos, Com efeito, assistimos
paralelamente à ascensão de muitas variedades que nem sempre realizam o
renascimento de antigos dialetos, mas o aparecimento de novos falares, que até
se beneficiam de modalidades escritas, graças a popularização da internet. É
claro que tais mudanças vão obrigar a repensar o papel da tradução – e da
literatura, também – num prazo não muito distante.
No panorama mundial, há uma
língua cada vez mais universal, o inglês, que, entretanto, é a língua materna
de cada vez menos seres humanos. Porém, esta língua universal se torna cada vez
mais um pidgin, linguagem simplificada
usada por todos, cuja expressividade se torna, entretanto cada vez menos
complexa, ou mais simplória. Enfim, seria uma espécie de latim tardio dos
nossos tempos. Nas ciências, tanto exatas como humanas, esta “língua” está cada
vez mais em uso, apesar de algumas resistências da retaguarda.
9.
Concluindo
ilustrando defasagens e conseqüências.
Para terminar, gostaria ainda de
ilustrar como as defasagens entre as publicações originais e as suas traduções
acarretam conseqüências culturais relativamente dramáticas de tal situação.
Até recentemente, na França se
considerava que não havia filosofia propriamente americana, que era tratada de “plouquerie”, até, isto é, de “babaquice”,
com muita seriedade! Há pouco tempo começaram a serem traduzidas obras de
Charles SANDERS ou de John DEWEY, por exemplo, e a já velha filosofia dita
analítica ou pragmática constitui uma novidade na cultura da França. O mesmo se
pode dizer da linguística funcional sistêmica ou dos estudos culturais ditos cultural studies, com grandes nomes como
Michael HALLIDAY ou Stuart HALL.
A conclusão é que as barreiras
estanques entre as disciplinas devem ser derrubadas o quanto antes, sob pena de
acarretar lamentáveis atrasos e preconceitos, e que por enquanto a tradução
continua sendo uma atividade que realiza tarefas urgentes, pelas quais as
línguas podem realizar a sua função de comunicação, enquanto pode, num mesmo
movimento, minimizar o seu papel identitário, cuja conseqüência funesta é a
mobilização do que se costumou chamar de nacionalismo, que ergue os povos uns
contra os outros...
[1]
Vale aqui observar que aquilo que se chama de “identidade” poderia
perfeitamente ser chamada de “alteridade”, isto é, o conjunto de traços que nos
torna “outro”, como, aliás, acontece na língua árabe, quando foram traduzidos
as obras do filósofos gregos.
[2]
Vale a pena citar, entre numerosos exemplos, o de Franz Kafka, escritor
“tcheca”... de língua alemã (na verdade a república tcheca nem existia, ele era
apena um súdito do império austro-húngaro. E será o Goethe um escrito
saxônico... de língua alemã (lembrando que a Alemanha política apenas existe
desde 1870)?
[3] "Traduire la littérature et les sciences humaines :
conditions et obstacles" (Editions du Ministère de la
Culture et de la Communication - Documentation française) - e "Quelles sont les raisons de traduire ou de ne
pas traduire une oeuvre ? - Coleção
"Questions de culture"- Préface de David Fajolles.
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